Fernando Gomes
O Bi-Bota

Fernando Gomes
Natural do Porto — 22 de Novembro de 1956
Aos 12 anos Fernando Gomes jogava, com um encanto que desconcertava, nos Salesianos de Pinto Bessa. Mas seria no futebol de salão, actuando pelo Sport Clube da Lomba, no popularíssimo torneio do Académico, que espiões portistas o descobririam, dois anos passados. Quando nasceu, o pai era gerente comercial de uma fábrica de calçado que, não muito depois, entraria em falência, pelo que teve de passar a empregado de escritório, apertando o cinto. Aziago parecia o destino, um dos filhos morrera pequenino, o outro inválido estava devido a paralisia infantil, não escondia que a esperança de afagar mágoas, de vencer o destino, pudesse estar nos pés de oiro que pressentia em Fernando. Eufórico ficou quando soube que o filho, que era também goleador de andebol de onze no Liceu Alexandre Herculano, recebera convite para treinar-se na Constituição, à ordem de António Feliciano.
Quando Cubillas ganhava 10 vezes mais!
Ainda júnior, Béla Guttmann colocou-o a treinar-se com os seniores, para não perder tempo na corrida para o fastígio. Seria, contudo, Aimoré Moreira a lançá-lo na primeira categoria do F. C. Porto, contra o Boavista, em 1974. Logo começou a marcar golos, muitos golos. Era o seu destino. Ganhava três contos por mês, mas ao subir à equipa de honra ofereceram-lhe mais nove, passando, assim, por esse tempo, a arrecadar ordenado de 12 contos. Uma ninharia, se se pensar que por essa altura o F. C. Porto pagara 5600 contos pelo passe internacional de Cubillas, cujo ordenado era de 125 contos por mês!!!
Quinze mil contos por ser persona non grata!
Em 1980 os portistas perderam o Campeonato para o Sporting e a Taça para o Benfica. Américo de Sá, o presidente, aproveitou-se dos desaires para despedir... Pedroto. Pinto da Costa e os jogadores em peso solidarizaram-se com o técnico despedido, denunciando que o fora apenas por... motivos políticos, por «Américo de Sá querer entrar na Assembleia da República, como deputado do CDS, com a cabeça de Pedroto debaixo o braço». Após várias semanas de acesa luta de bastidores, os dissidentes regressaram às Antas, Gomes foi transferido para Gijón, pelo que o F. C. Porto arrecadou 40 mil contos, ficando o jogador com 15 mil para si.
Apoteótica foi a sua estreia pelo clube espanhol. Contra o Oviedo, cinco golos marcados! Foi sol de pouca dura, já que, pouco tempo depois, ensarilhado ficou por lesões várias. Sujeitou-se a uma complicada operação, tentou, quase em desespero, tratamento por acupunctura, fechando a época com apenas quatro jogos disputados.
Como em França perdeu 225 mil contos
Na temporada seguinte, como as saudades apertaram, ele próprio abriu caminho à negociação da sua transferência para o F. C. Porto, outra vez com Pinto da Costa, outra vez com Pedroto. Apesar de o Benfica de Eriksson ter feito dobradinha (ganhando a Taça de Portugal nas Antas ao... F. C. Porto), uma muito mais que suave consolação para Gomes: ganhou a sua primeira Bota de Ouro.
Um ano se passou, Portugal logrou a histórica proeza de apurar-se para a fase final do Campeonato da Europa, o F. C. Porto só não ganhou a Taça das Taças à Juventus porque, como Gomes diria, com ironia, um árbitro da RDA andava precisado de divisas! De Itália chegaram, então, notícias de que o Milan estava disposto a pagar 255 mil contos pela sua transferência. Parecia, pois, navegar num mar de rosas. Mas não. No jogo de estreia da saga dos patrícios, contra a Alemanha, Gomes esteve em campo escassos cinco minutos, desabafando: «É muito estranho o que se está a passar comigo, o que me tem acontecido em França é um pesadelo.» Jogando apenas 140 em 360 minutos possíveis, afectado psicologicamente por toda a turbulência que se gerara em torno de si, foi sem surpresa que de Milão mandaram dizer, no final do Euro-84, que Gomes já não interessava. Talvez só Pinto da Costa tenha suspirado de alívio. Poderia, assim, manter a sua coqueluche, ainda mais valorizada, um ano volvido, com a conquista da segunda Bota de Ouro. A tal do misterioso toque de Delane Vieira, então o assumido médium — é assim que se considera, não é bruxo — do F. C. Porto. Faltavam quatro jornadas para o fecho do Campeonato e Gomes lesionou-se. O sonho parecia desfeito. Delane disse-lhe que não se preocupasse, que tratasse apenas de lhe arranjar o nome completo e a data de nascimento de McGaughey. Gomes fê-lo quase só por descargo de consciência e na semana seguinte o ponta-de-lança do Linfield lesionava-se também!
No México, Fernando Gomes jogaria mais que em França, mas sem brilho continuaria. Vítima de Saltillo seria como os demais. Insatisfeito consigo próprio não estava, de tal modo que teria mais uma das suas espirituosas tiradas, como aquela de que o golo é como um orgasmo — «se atingisse em cultura o que atingi futebolisticamente, seria, talvez, um grande cientista». Não muitos meses volvidos, uma cruel partida do destino. Lesão grave impediu-o de disputar a final da Taça dos Campeões Europeus. Mas tinha ainda mais glória para conquistar: a Taça Intercontinental, num campo de neve em Tóquio, a Supertaça Europeia, em duas noites de humilhação do Ajax de Cruyff. Na segunda, nas Antas, a parábola dos alcatruzes da nora: era o jogo da consagração, contra todas as expectativas, Ivic substituiu-o por... Jorge Plácido, impedindo-o, assim, de receber a Supertaça das mãos de Silva Resende, então vice-presidente da UEFA. Nas bancadas levantaram-se apupos como estrugidos ao croata que parecia ter o coração de aço. Mas, olimpicamente, Gomes desdramatizou, não querendo comentar os assobios que, para si, valiam, naturalmente, como palmas. Por essa altura, Ivic decidira já que, para si, Gomes era... finito, ao que o goleador redarguiria: «Se já penso na minha retirada? Oh! Oh! Eu sou homem de viver o presente e pouco me preocupar com o futuro, mas tenho um amigo astrólogo que me diz que ainda hei-de jogar mais quatro anos...»
Suspenso por chamar «bufo» e «palhaço» a Octávio
Quinito chegou às Antas e avisou que consigo seriam «Gomes e mais 10». No F. C. Porto não impôs a sua magia; Artur Jorge regressou de Paris obcecado com a limpeza do balneário e Gomes foi uma das vítimas. Nos primeiros dias de 1989, porque num hotel do Funchal, noite dentro, se serviu o jantar em último lugar aos futebolistas, Gomes rebelou-se e Octávio Machado exigiu que se calasse, o capitão, legitimado pela razão que lhe assistia, não se calou, chamou-lhe «palhaço» e «bufo». No dia seguinte era suspenso, por Pinto da Costa, de toda a actividade desportiva. Em Agosto assinaria contrato com o Sporting, desfiando mais uma farpa: «O sr. Pinto da Costa andou, lamentavelmente, a brincar comigo.» Continuou a marcar golos, muitos golos, provando, assim, que merecia fechar a sua carreira de futebolista de outro modo e, naturalmente, nas Antas. Que era o que ele queria.
O crucifixo e a língua de fora
Fernando Gomes entrava sempre em campo com um fio de ouro, com um crucifixo, ao pescoço. Era o seu amuleto. «Sou religioso, tenho a minha fé, e se ia para o campo com esse tipo de objectos era porque acreditava em qualquer coisa que poderia ajudar, que não era só a sorte.» Apesar de ter jogado num clube em que a glória se conquistou (e continua a conquistar) também por via das superstições, ele não era muito...
Por muito pouco não chegou à mágica soma de 800 golos em competições oficiais. Os golos ajudaram à fortuna. Por exemplo, em 1986, após a conquista da segunda Bota de Ouro, a Puma ofereceu-lhe 20 mil contos para que publicitasse os seus produtos durante três anos. Essa era a verba que se dizia que ganhava, num ano, no F. C. Porto.
Apesar de tantos golos ter marcado, não pode dizer-se que tenha sido um avançado... egoísta, antes pelo contrário. «Talvez tenha sido uma das coisas que me faltaram como goleador, mas isso era coisa que vinha de trás. Lembro-me bem de que o mestre Pedroto passava os dias a moer-me o juízo, dizendo que chutasse à baliza, que me deixasse da mania das tabelinhas, que se quisesse tabelas que fosse para jogador de basquetebol.»
Jogava, lutava, deslumbrava. Quase sempre a... morder a língua. «Isso era instintivo, sobretudo quando chegava a hora de rematar. Desde miúdo que carregava o vício. Com o meu pai acontecia o mesmo, deve ser hereditário. E só me apercebia de que punha a língua de fora pelas das fotografias. Se me incomodava? Pfff!»
ABOLA[/img]














