Manuel Fernandes

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Manuel Fernandes
Natural de Sarilhos Pequenos — 5 de Junho de 1951
Não nasceu, naturalmente, em berço de oiro, mas também não pode queixar-se de uma infância como a daqueles homens a quem Soeiro dedicou os Esteiros — que nunca foram meninos. O futebol foi sempre a sua mais ardente paixão. Depressa deu nas vistas, nos jogos do rapazio de Sarilhos. Apesar disso, aos 16 anos, foi a medo, titubeante, que apareceu no campo do Sarilhense, para testes. Colocaram-no na equipa de juvenis, mas no ano seguinte, para espanto sobretudo de si próprio, o treinador chamou-o para a equipa de honra do Sarilhense que disputava o Campeonato da III Divisão. Jogava, então, como elemento de ligação entre a linha média e o ataque, por isso, às vezes, desgostava-se por não o deixarem fazer aquilo que mais adorava: marcar golos, muitos golos.
Como Costa Pereira esbanjou o diamante de Sarilhos
Um espião do Barreiro descobriu-lhe o jeito e, no final da temporada, surgiu-lhe em casa a convidá-lo para jogar na CUF, a troco do emprego que quisesse na companhia. Ficou eufórico e foi. Como treinador encontrou... Costa Pereira, mas não se pode dizer que entre eles se tivesse estabelecido especial empatia. Antes pelo contrário. Manuel Fernandes passou um ano inteiro a... marcar golos nos jogos de reservas, o guarda-redes que fora bicampeão europeu (e que tentava carreira de treinador que baldada seria) não o pôs a jogar um minuto que fosse na primeira categoria. Quando, em 1970/71, Carlos Silva substituiu Costa Pereira, chegou, enfim, a hora de Manuel Fernandes. Sem demoras se tornou a estrela da companhia, quatro anos após ter-se estreado, oficialmente, no futebol, pelos juvenis do Sarilhense. Na época seguinte, com Fernando Caiado como treinador, a CUF tornou-se a equipa-revelação do futebol português, classificando-se em quarto lugar no Campeonato. Com um golo de Manuel Fernandes, que derrotou o F. C. Porto, os cufistas garantiram histórica participação na Taça UEFA e o rapaz de Sarilhos tornou-se a sua mais badalada vedeta. De Alvalade, das Antas, de Belém começaram a chegar-lhe acenos, mas como lhe corria bem a vida no clube dos Melos, deixou-se estar...
PREC e premonição da mãe
Num dia de Abril em que os canos da espingarda se engalanaram com cravos vermelhos, o fascismo tombou. Portugal entrou em vertigem revolucionária. Alguns futebolistas da CUF renegaram o profissionalismo, ufanando-se de serem... jogadores-trabalhadores. Não muito depois o clube desintegrar-se-ia como um castelo de cartas, numa noite de tempestade do PREC.
Manuel Fernandes queria, sobretudo, ser jogador de futebol, mais, naturalmente, que trabalhador fabril. Por isso, colocou, enfim, a possibilidade de transferir-se para o Barreiro. Pedroto, que estava já apalavrado com o F. C. Porto, pediu a Américo de Sá que o fosse buscar. Mil contos de luvas estavam dispostos a dar-lhe. João Rocha ofereceu um pouco menos. A caminho do... telefone, para dar o sim aos portistas, lembrou-se da premonição da mãe, que falecera não muito antes: haveria de jogar no Sporting, que era o clube de todos eles. Gostava de futebol, a senhora raramente perdia um jogo do Sarilhense. Sentimentalão, Manuel arrepiou caminho e aceitou a proposta de Alvalade.
Depois, a histórica bonita que se conhece de uma vida que não pode resumir-se num flash de glória. Jamais se esquecerá de um golo decisivo apontado por si, contra o União de Leiria, que valeu o seu primeiro título de campeão nacional, em 1979/80, com Fernando Mendes a treinador. Igualmente emocionante a memória da época de 1985/86, numa altura em que o julgavam já «condenado à reforma» e em que, com 30 golos, ganhou a Bola de Prata, tendo apontado cinco golos ao Penafiel. Nada que se compare, contudo, à «tarde mágica e inesquecível» dos 7-1 ao Benfica. «Marquei quatro golos, uma sensação inesquecível, mas estou convencido de que se o jogo durasse mais algum tempo... Mas, sinceramente, mais que qualquer golo ou jogo, o maior momento de glória da minha vida foi aquele em que vesti, pela primeira vez, a camisola do Sporting. Só de pensar nisso fico sem palavras, por vezes com as lágrimas à beira dos olhos. Se calhar são pieguices, mas sou assim... Mas, pronto, vá lá, talvez por tudo isso o golo mais importante da minha carreira tenha sido aquele que apontei contra o F. C. Porto, na final da Taça de Portugal, em 1978. Foi o meu primeiro grande título no futebol português...»
Foi a tal final em que o escândalo estoirou porque, no dia seguinte, Mário Luís, que validara um golo ilegal aos lisboetas, partiu com o... Sporting para uma histórica digressão pela China, deixando, por cá, Pedroto e Pinto da Costa apostrofando coisas bem piores que essa frase feita de que a mulher de César não precisa apenas de ser séria...
Como Torres o livrou de Saltillo
Poderia ter sido o momento mais emocionante da sua vida. Não foi. Apesar de nessa época ter conquistado a Bola de Prata, José Torres não o convocou para o Mundial do México. Com Manuel Fernandes inconsolável, em Sarilhos, João Rocha clamou pelo imediato despedimento do seleccionador, que para si seria a única forma de repor a justiça! Porque não é, nunca foi, homem de rancores, apesar de não esquecer, nunca mais, a desfeita, não deixou de falar a Torres! É assim...
Não foi ao México, não se tornou vítima de Saltillo, por isso, quando todos os que lá tinham estado ainda se mantinham indisponíveis, em Agosto de 1986, tinha ele 35 anos, Rui Seabra convocou Manuel Fernandes para a Selecção dos seabrinhas. O goleador, que não muito depois haveria de ser consagrado, em Paris, entre Maradona e Hugo Sanchez, como melhor marcador de Portugal, ficou feliz e espalhou esperanças de continuar a marcar golos, muitos golos, reafirmando, contudo, que não estava naquela condição por haver 20 jogadores indisponíveis para a equipa das quinas. E não.
Mas, um ano depois, o inglês Burkinshaw, que ainda agora Manuel Fernandes considera uma... «caricatura de treinador», apontar-lhe-ia a porta da rua, pelo que, magoado, como se fora outra vez traído pelo destino, deixou Alvalade, assinando contrato com o Vitória de Setúbal por dois anos.
Muitos mais golos marcaria, mas, azarento, em Novembro de 1987, em choque com Virgílio, fracturou o malar. Quatro meses no estaleiro e, nesse comenos, um sinal de mágoa no seu coração-de-leão que não deixara de ser, nunca deixará de sê-lo: «Um só jogador do Sporting ganha, agora, num ano, aquilo que eu ganhei em... 12!»
Em Maio de 1988, Fernando Oliveira, que para o Bonfim o levara, entregar-lhe-ia o comando técnico do Vitória, em substituição de Allison, que em Setúbal impusera, com Roger Spry, treinos exóticos, com os jogadores de caras pintadas, como índios na selva. Ao Sporting haveria de regressar Manuel Fernandes, como adjunto de... Bobby Robson, mas quando Sousa Cintra despediu o inglês não quis ficar, por a solidariedade ser para si muito mais que uma palavra. Não muito depois, aceitou o convite de Rui Nabeiro e o desafio para levar o Campomaiorense à I Divisão. Ganhou a aposta, tal como, em 1998/99, quando subiu o Santa Clara.

Estreia no campeonato
19 de Outubro de 1969
Treinador: Costa Pereira
Adversário: Benfica
Resultado: 0-2
Incidências: entrou na segunda parte, a substituir Louro
Currículo
Nome completo: Manuel José Tavares Fernandes
Data de nascimento: 5 de Junho de 1951 (Sarilhos Pequenos, Moita)
Campeonato Nacional: 2 títulos (79/80 e 81/82)
Taça de Portugal: 2 vitórias (77/78 e 81/82)
Supertaça Cândido de Oliveira: 1 vitória (81/82)
Selecção Nacional: 34 jogos/13 golos
Competições europeias: 56 jogos/19 golos









